Comer e dar de comer

Na celebração de Corpus Christi a Igreja contempla o mistério da eucaristia, presença continuada de Cristo no caminho dos discípulos. Este é um mistério que encanta, arrebanha e sustenta a vida dos peregrinos. É preciso comer, pois o caminho é longo. Sem a alimentação o corpo enfraquece.  Deus sempre encontra um jeito de vir em socorro dos seus filhos. O anjo de Deus encontrou-se com o vazio, o cansaço e  o abatimento expresso no Profeta Elias e lhe entregou o pão do vigor. Ele comeu e pôde caminhar até à montanha sagrada, o Horeb (1Rs 19, 7-8).

Jesus, o enviado do Pai, se fez pão descido do Céu e se deu em alimento para quem dele comer tenha a vida eterna. Antecipando o mistério da Cruz, Jesus instituiu a Eucaristia e encarregou aos apóstolos para dar continuidade àquele gesto sacramental. “Fazei isto em memória de mim” (Lc 19,22). Enquanto os discípulos fazem o seu caminho diário, os mesmos, se alimentam do pão eucarístico ganhando vigor para seguir na busca da comunhão plena e definitiva. O caminho é longo e sem o toque divino a vida não ganha leveza. Precisamos de Jesus.

A multidão que seguia Jesus tinha suas dores, cansaços, esperanças, pois ele era a luz que brilhava afugentando a escuridão não só do presente, mas também  do futuro. Quem permanecia com Jesus avistava um caminho aberto.  Havia muitas pessoas em sua volta e a tarde vinha chegando. Os discípulos queriam tirar a multidão de perto de Jesus. “Despede a multidão para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto” (Lc 9,12). Era mais cômodo despedir a multidão, mas Jesus não queria despedi-la e desejava que a multidão fosse saciada pelos discípulos. “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13).

Na Eucaristia o discípulo se alimenta de Jesus.  Todo alimento gera energia e dá coragem para prosseguir. O discípulo precisa se alimentar e quem se alimenta deve se tornar alimento para as outras pessoas. É preciso comer e dar de comer. Aqui cabem algumas perguntas. As nossas atitudes são alimentos para a família, para a comunidade? Nossas palavras se tornam pão benfazejo? O que temos e somos se tornam um alimento dadivoso para os irmãos?

Tenho visto muitas pessoas que não tem bens materiais e estão desgastadas pela doença, ou velhice. Aos olhos do mundo são restos humanos, mas por terem um corpo alimentado em Jesus se tornam alimento dando testemunho de fé, esperança e amor. A sabedoria de Deus está no coração especialmente dos simples. Quantas palavras santas saem da boca daqueles que são “restos humanos”, aos olhos do mundo, mas na verdade são santuários divinos porque tem algo de Deus para oferecer. Comem e dão de comer.

Corpus Christi, neste ano acontece bem próximo ao Congresso Eucarístico Nacional que vai acontecer em Belém de 15 a 21 de agosto, deste ano. O tema do Congresso é: “Eucaristia e partilha na Amazônia missionária”. A Amazônia passa fome da eucaristia. Muitas comunidades ficam mais de ano sem terem a celebração da Eucaristia. Essa realidade nos questiona. Precisamos dar de comer àquele povo. “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9,13). A Diocese de Uruaçu enviará neste ano, um missionário para a Amazônia. Ele será como o anjo enviado para levar ao povo o pão misterioso para que o mesmo não fique abatido por falta do alimento.

O desafio de comer e dar de comer nos faz pensar na partilha do dom da fé, do evangelho e da eucaristia nos setores difíceis da sociedade. Há muita gente aparentemente nutrida, mas que está vulnerável às pestes da corrupção, da violência, da desonestidade, do hedonismo, da indiferença e essas pessoas vão seguindo no caminho oferecendo o alimento que mata, ou dele se alimentando. Jesus é o pão da vida. “Quem  come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54).

O que existe de Cristo em nós deve ser partilhado. A Eucaristia deve ser contemplada com os olhos, descida ao coração  e aí ser  amada, mas  precisa sair pelos bolsos através das mãos generosas que praticam obras de misericórdia. Entremos no mistério profundo da celebração do Corpus Christi e peçamos a graça de não reclamarmos quando forem tirados pedaços de nós em favor dos irmãos.

Dom Messias dos Reis Silveira

Bispo de Uruaçu – GO

Fonte: diocesedeuruacu.com.br

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