São José Vaz, o clandestino com a vela

4Ivrea (RV) – Não somente para a Índia e o Sri Lanka é motivo de alegria a canonização do Beato José Vaz, mas também para o Oratório de São Felipe Neri, que vê inscrito no álbum dos santos um de seus sacerdotes. Como dizia João Paulo II há 20 anos, durante a sua beatificação: “Em consideração a tudo aquilo que o Padre Vaz foi e fez, de como o fez e nas circusntâncias nas quais conseguiu desenvolver a grande obra de salvar uma Igreja em perigo, é justo saudá-lo como o maior missionário que a Ásia já teve”.

Já os seus confratelos tinham consciência desta extraordinária grandeza, segundo registro histórico que remonta a janeiro de 1711, enquanto o Padre Vaz era exposto à veneração dos fiéis na igreja de Kandy: “Em 16 de janeiro morreu o venerável Padre Vaz, Vigário Geral desta missão e pai dos missionários. A dor e a desolação provocados pela sua perda são muito grandes e não podem ser descritos, pois ele foi verdadeiramente, um sacerdote santo”.

O Padre José Vaz havia entrado clandestinamente no então Ceilão, terra oprimida pela perseguição contra os católicos desencadeada pelos calvinistas holandeses, que haviam conquistado a ilha. Quando os encontrou vestido como escravo e na condição de mendigo, todos os sacerdotes haviam sido assassinados ou expulsos, as igrejas profanadas ou destruídas, os fiéis dispersos, aterrorizados pelas ameaças de morte.

Quando de sua morte, a Igreja havia se tornado florescente, com setenta mil fervorosos católicos, 15 igrejas, quatrocentas capelas, dez sacerdotes e numerosos catequistas leigos que cuidavam da formação do povo, servindo-se dos manuais que Padre Vaz havia composto em língua local. Este pequeno homem, com a santidade da sua vida e o seu zelo apostólico, lançou raízes tão profundas, incapazes de serem estirpadas pelas tempestades sucessivas que se abateram sobre a ilha.

Nasceu na Índia, no vilarejo de Benaulim, território de GOA, em 21 de abril de 1651, em uma família de Bramini Konkany, convertida ao cristianismo no século XVI. Tendo realizado os estudos preparatórios, prosseguiu em GOA a formação humanística na universidade dos jesuíitas, e a filosófica e teológica no Colégio dominicano de São Tomás de Aquino.

Ordenado sacerdote em 1676, iniciou a exercitar o ministério sacerdotal no povoado onde nasceu, mas foi logo convidado a pregar na Catedral e a dedicar-se ao serviço das confissões e direção espiritual.

O ardor missionário que o animava o fez descobrir a triste realidade vivida no então Ceilão, sentindo o chamado de se dirigir àquelas terras. As autoridades da diocese, no entanto, o enviaram à Kanara, onde a Santa Sé havia erigido um Vicariato Apostólico, mas onde havia, já há algum tempo, um litígio de competências e jurisdições, o que perturbava a vida dos fiéis. Tendo voltado para Goa em 1684, na solidão e na sombra em que a ingratidão o havia deixado, Padre José sentiu o forte desejo de entrar em uma ordem religiosa. No Monte Boa Vista, encontrou três sacerdotes indianos que haviam iniciado uma vida comum na Igreja de Santa Cruz dos Milagres e quis fazer parte. Eleito superior, foi o verdadeiro fundador da comunidade, à qual deu uma nítida fisionomia espiritual e a forma jurídica da Congregação de São Felipe Neri, da qual havia chegado a notíicia de Portugal, onde o Oratório fundado pelo venerável Bartolomeu de Quental era florescente.

Quando Clemente XI, em 26 de novembro de 1706, confirmava a fundação e elogiava as suas obras, Padre Vaz já havia partido para o Ceilão. Ao final de 1686, de fato, enquanto a comunidade, rica de vocações e de bons frutos, já podia caminhar sem ele, sentiu chegado o momento de responder ao nunca esquecido chamado em favor dos católicos abandonados. Em companhia de João, um jovem que o seguiu até o fim, conseguiu entrar no país desembarcando na costa, após várias e estenuantes tentativas.

Mesmo com medo de ser descoberto, começou a procurar os católicos, a maior parte dos quais, sob a perseguição, havia assumido externamente hábitos calvinistas e não ousava se expor. Padre Vaz colocou no pescoço o terço e começou a bater de porta em porta, pedindo esmola. Entre a indiferença dos budistas e dos hinduistas, notou alguém que observava com interesse aquele sinal de piedade católica. Começou com uma família. Quando estava seguro da sua fidelidade, revelou sua identidade.

Assim, teve início a evangelização da ilha, que continuou no vilarejo de Jaffna, por dois anos, no exercício do ministério em segredo, com a celebração noturna da missa e a escuta daqueles que a ele se dirigiam para a confissão e a direção espiritual.

O florescer da comunidade católica chamou a atenção das autoridades holandesas, mas Padre Vaz – enquanto a ira do governador se voltava contra os católicos, e não poucos foram os mártires – foi colocado a salvo pelos próprios fieis que o induziram a fugir para o interior da ilha, no pequeno Estado de Kandy, ainda formalmente autônomo. O Rei o mandou prender, mas, informado por observadores sobre sua fama de santidade, acabou se tornando seu amigo e Padre Vaz teve a possibilidade de pregar e de difundir a fé em todo o reino, percorrendo à pé o território e estabelecendo a presença da Igreja em todos os lugares por onde passava.

A epidemia de varíola surgida em 1697 teria destruído completamente a população – segundo disse o próprio Rei – se a caridade e a inteligência de Padre Vaz não houvesse providenciado a cura dos doentes e o ensino de normas de higiene, o que ajudou a conter o contágio.

Na noite de 15 de janeiro de 1711, a comunidade oratoriana lhe pedia uma última recordação. E Vaz disse: “Recordem que não se pode facilmente realizar no momento da morte aquilo que se negligenciou de fazer em toda a vida”. E tendo em mãos uma vela acesa e o nome de Jesus em seus lábios, encerrou sua dedicada peregrinação terrena.

Dom Eduardo Aldo Cerrato

Bispo de Ivrea

 (from Vatican Radio)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *