Jubileu de Prata Sacerdotal

“Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que Ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor”! (Salmo 115).

 

É com este brado da Sagrada Escritura que inicio essa ação de graças por 25 anos de missa. Sim, 25 anos de eucaristia. No dia da minha ordenação, há um quarto de século, Dom José Chaves – cuja presença aqui hoje tanto me honra e comove – me exortou parafraseando que assim como uma rede elétrica é estruturada para que a energia alcance a lâmpada, assim a graça de Deus agiria na minha alma pela imposição das mãos e unção do Santo Crisma, configurando meu ser a Cristo Cabeça e Pastor.

 

Desde então, Divinamente capacitado e Eclesialmente enviado, recebi o mandato sagrado: ‘Fazei isso em memória de mim’ (Lc 22,19). Um jovem, 6 meses antes de completar 25 anos de idade, pode até compreender essas palavras nos livros de teologia; mas é preciso: tempo, ascese, cruz e oração silenciosa para desvelar o peso e a glória desse mistério.

 

A primeira leitura faz menção da escolha e eleição dos servos do Senhor. Até hoje me estremeço diante dessa verdade: um Deus apaixonado quis servir-se de instrumentos frágeis e pecadores para continuar sua obra de Redenção. Entre tantos, escolheu a mim. A razão última desse chamado está escondida nas entranhas da misericórdia do Pai do Céu. A mesma misericórdia que jorra do Sagrado Coração de Jesus, que me conduziu desde a primeira paróquia até a atual missão como pai espiritual da Comunidade Coração Fiel.

 

“Eis que venho Senhor, para fazer a tua vontade!” (Sl 39). Este salmo, que entoamos há pouco, pude cantá-lo no dia da minha ordenação. Estas palavras foram o pano de fundo da preparação que me acompanhou nesses últimos tempos, para celebrar esse jubileu. Divino Oleiro plantou esse desejo dentro de mim: Querer o que o Senhor quer! Isso tem sido meu anseio desde então, e é isso que tenho ensinado aos meus filhos missionários.

 

Esta manhã recebi o telefonema do meu querido irmão de estudos em Roma – Dom José Otácio – que me disse uma frase lapidar: “É melhor uma fidelidade acidentada do que uma coerência pretenciosa”… Em termos claros: é melhor prosseguir ferido e humilhado pelas próprias limitações – sustentado pela misericórdia, do que desistir ou mascarar a própria miséria sob uma capa de perfeição.

Nestes 25 anos tenho muito a pedir perdão a Deus e aos irmãos.

Libero hoje o perdão que eu também preciso dar.

Tudo tenho para agradecer.

Muito mais tenho para melhorar.

Quem dera, tivessem sido 25 anos de fidelidade absoluta e íntegra. Agradeço a Nosso Senhor que permanece fiel enquanto eu ainda aprendo a sê-lo!

Deus me conceda doravante reparar o que faltou e melhorar o que foi positivo. Para isso repito o que tem sido o refrão do ministério a mim confiado: “Senhor, Tu sabes tudo, sabes que eu te amo!”. Para além de tudo o que não pude viver plenamente, o Senhor ‘sabe’ o que jaz no íntimo da minha alma, minha opção fundamental por Ele , por Sua Palavra e pelo seu Reino.

 

‘Senhor, tu sabes que eu te amo’; esse amor que não se limitou a sentimento e emoção, tem penetrado minhas fibras. Ao longo desse quarto de século, esse amor tem purgado minhas imperfeições. Ainda falta muito. Espero ter tempo para melhorar e se não o conseguir, desejo contar com o sufrágio das orações por minha pobre alma, ao reencontrar-me na hora final com meu Divino Juiz e Eterno Senhor.

 

Hoje, ao erguer o santo cálice e a sacrossanta hóstia, não apenas cumpro a ordem que me foi dada por Deus; também compartilho de sua dor ao ver o quanto ainda precisa ser feito para que o mundo O conheça e O ame; também renovo o propósito de colaborar para que se complete a obra que foi iniciada na minha alma.

Imploro uma bênção fecunda sobre todos os que estão comigo hoje, e até hoje.

Confio-me às preces de todos vocês, para que eu não atrapalhe o que o Senhor tem realizado de maneira tão bela há 25 anos.

 

Diante do altar e diante de toda a Igreja reunida, repito com a humildade de Pedro a única verdade que me sustenta: “Senhor, Tu sabes tudo; sabes que eu Te amo!

” (Jo 21,17). Amém.

Pe Delton Filho