Nunca antes um Papa tinha convocado representantes das grandes religiões do mundo para um dia dedicado à paz. Em 27 de outubro de 1986, João Paulo II escolheu Assis, a cidade de São Francisco, para uma iniciativa sem precedentes, destinada a deixar uma marca profunda na história do diálogo inter-religioso. Quarenta anos depois, esse encontro permanece um dos gestos mais significativos de seu pontificado e um ponto de referência para seus sucessores.
Jovens judeus oferecendo ramos de oliveira a representantes religiosos, especialmente muçulmanos: um gesto que o cardeal Roger Etchegaray, a quem o Papa Wojtyła confiou a “direção” do encontro, recordaria mais tarde, dizendo ter se comovido até às lágrimas. A troca de votos de paz entre os líderes das Igrejas cristãs na Catedral de São Rufino, com a emoção visível nos rostos de alguns participantes. Os líderes, entorpecidos pelo frio, reuniram-se no palco em frente à basílica, e o arco-íris que surgiu após uma manhã cinzenta: dois detalhes que permanecem no testemunho de Etchegaray, que viu o arco-íris como um sinal de fraternidade. Estas são algumas das imagens que restam daquele dia histórico, nascido para testemunhar um compromisso partilhado com a paz, respeitando as diferentes crenças religiosas, com cada pessoa reunida em oração segundo a sua própria tradição.
Mas, para além das memórias, aquele dia deu origem ao chamado “Espírito de Assis”: o compromisso das diferentes religiões em se encontrarem, dialogarem e construírem a paz em conjunto. Uma experiência que se tornou uma referência para o Magistério, um gesto a ser interpretado, esclarecido e desenvolvido. O cardeal Roger Etchegaray recordou o seu princípio com uma fórmula de João Paulo II: “Estar juntos para rezar, mas não rezer juntos”. Na sequência da Nostra aetate, a declaração do Concílio Vaticano II sobre as relações da Igreja Católica com as religiões não cristãs, o diálogo assumiu uma forma visível, sem apagar as diferenças. Do Papa Wojtyła aos seus sucessores, a reflexão voltaria repetidamente à relação entre oração e paz, identidade religiosa e encontro, fé e responsabilidade para com a humanidade.
O Concílio reinterpretado através de um evento
“A própria identidade da Igreja Católica e sua autoconsciência foram fortalecidas em Assis”, afirmou João Paulo II em 22 de dezembro de 1986, dirigindo-se à Cúria Romana em sua tradicional saudação de felicitações, oferecendo uma interpretação teológica do encontro. Não basta regozijar-se com o seu sucesso, parece sugerir o Pontífice: é preciso compreendê-lo à luz da fé. O fundamento é a unidade da família humana, na criação e na obra salvífica de Cristo. Assis torna visível essa unidade sem ocultar as divisões religiosas. A relação com o Vaticano II é, portanto, recíproca: o Concílio permite-nos interpretar esse dia, mas esse dia nos ajuda a reler o Vaticano II com maior profundidade. O diálogo não enfraquece a identidade eclesial: pode tornar a Igreja mais consciente de sua missão de reconciliação.
O Espírito além das fronteiras visíveis
Quatro anos depois, na encíclica Redemptoris missio, de 7 de dezembro de 1990, João Paulo II reiterou essa convicção, já formulada perante a Cúria, recordando explicitamente Assis. “Toda oração autêntica é inspirada pelo Espírito Santo, que está misteriosamente presente no coração de cada ser humano”, afirmou o Papa João Paulo II. Este foi um passo decisivo: a experiência contribuiu para repensar o papel do diálogo inter-religioso na missão da Igreja. Reconhecer a ação do Espírito nos outros não se opõe à proclamação de Cristo, mas faz parte do único plano de salvação. Assis, “excluindo qualquer interpretação ambígua”, testemunha que o respeito pelo homem em sua busca religiosa é também respeito pela obra de Deus nele. O diálogo, portanto, tem uma justificativa teológica, e não meramente diplomática ou humanitária.


