O Papa Francisco celebrou a Missa do Crisma, na manhã desta quinta-feira, 6, na Basílica de São Pedro. O Pontífice iniciou sua homilia com o versículo do Evangelho de Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim”. O Santo Padre refletiu com os sacerdotes e fiéis, presentes na missa, sobre o Espírito do Senhor. “Sem ele não há vida cristã e, sem a sua unção, não há santidade”.

O Espírito é o protagonista, indicou o Papa. Segundo ele, é bom hoje, no dia do nascimento do sacerdócio, reconhecer que o Espírito Santo está na origem desse ministério, da vida e da vitalidade de cada Pastor. “Sem Ele, nem sequer a Igreja seria a Esposa viva de Cristo, mas, no máximo, uma organização religiosa; não seria o Corpo de Cristo, mas um templo construído por mãos humanas”, refletiu.

“Então como edificar a Igreja senão a partir do fato de sermos «templos do Espírito Santo» que habita em nós? Não podemos deixá-Lo fora de casa ou arrumá-Lo em qualquer área devocional”, comentou. Francisco afirmou que cada um pode dizer: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Não é presunção, mas a realidade, já que cada cristão, e de modo particular cada sacerdote, pode fazer suas as palavras que se lhe seguem: ‘porque o Senhor me consagrou com a unção’. Irmãos, sem mérito nosso, por pura graça, recebemos uma unção que nos fez pais e pastores no Povo santo de Deus”.

Unção

Detendo-se na “unção”, um aspecto do Espírito Santo, o Pontífice reforçou que, depois da primeira “unção” que aconteceu no ventre de Maria, o Espírito desceu sobre Jesus no Jordão. Segundo o Santo Padre, Jesus e o Espírito trabalham sempre juntos, como se fossem as duas mãos do Pai que, estendidas para a humanidade, a abraça e a levanta. O Senhor não Se limitou a escolher e chamar cada pessoa, garantiu o Papa, mas infundiu em todos a unção do seu Espírito, o mesmo que desceu sobre os Apóstolos.

“Fixemos então o nosso olhar nos Apóstolos”, disse o Papa. “Jesus sabia que eles, sozinhos, não conseguiriam e por isso prometeu-lhes o Paráclito. E foi aquela «segunda unção», no Pentecostes, que transformou os discípulos, levando-os a apascentar o rebanho de Deus, e já não a si mesmos. Foi aquela unção de fogo que extinguiu uma religiosidade centrada em neles mesmos e nas próprias capacidades: acolhido o Espírito, evaporam-se os medos e as hesitações de Pedro, Tiago e João, consumidos pelo anseio de dar a vida, deixam de procurar lugares de honra, o carreirismo, nosso, irmãos, os outros deixam de estar fechados e temerosos no Cenáculo, mas saem e tornam-se apóstolos pelo mundo inteiro”.

Um itinerário semelhante abraça a vida sacerdotal e apostólica, sublinhou o Papa. Também para os sacerdotes, houve uma primeira unção, com início num chamado cheio de amor que arrebatou o coração de muitos. “Por ele, soltamos as amarras e, sobre um genuíno entusiasmo, desceu a força do Espírito que nos consagrou”.

Etapa pascal

“Depois, segundo os tempos de Deus, havia de chegar para cada um a etapa pascal, que marca a hora da verdade. Trata-se de um momento de crise, que possui várias formas. A todos acontece, mais cedo ou mais tarde, experimentar desilusões, cansaços e fraquezas, com o ideal que parece diluir-se perante as exigências da realidade, substituído por uma certa rotina; e algumas provações – difíceis de imaginar antes – fazem aparecer a fidelidade mais incômoda do que outrora. Esta etapa, desta tentação, desta provação que todos nós tivemos, temos e teremos, esta etapa representa, para quem recebeu a unção, um cume decisivo”, observou.

Segundo o Papa, desse cume decisivo pode-se sair mal, deixando-se planar rumo a uma certa mediocridade, arrastando-se cansado numa “normalidade” cinzenta onde se insinuam três perigosas tentações: a da acomodação, em que a pessoa se contenta com o que pode fazer; a de substituição, em que se tenta “recarregar” o espírito com algo diferente da unção; a do desânimo, em que, insatisfeitos, se avança por inércia.

O Santo Padre alertou então para o grande risco de se permanecerem intactas as aparências, enquanto a pessoa se fecha em si mesma e conduz a vida na apatia. “A fragrância da unção deixou de perfumar a vida, e o coração, em vez de se dilatar, restringe-se envolvido pelo desencanto. É um destilado, sabe? Quando o sacerdócio desliza lentamente para o clericalismo, e o sacerdote se esquece de ser pastor do povo para se tornar um clérigo de Estado”.

Crise como ponto de virada

Depois, o Pontífice disse que a crise pode tornar-se também um ponto de virada no sacerdócio. De acordo com ele, esta é a etapa decisiva da vida espiritual, em que se deve efetuar a última escolha entre Jesus e o mundo, entre a heroicidade da caridade e a mediocridade, entre a cruz e um certo bem-estar, entre a santidade e uma honesta fidelidade ao compromisso religioso”. Francisco recomendou a leitura do livro “O segundo chamado”, um clássico do Padre Voillaume que aborda este problema. Para ele, todos precisam refletir sobre este momento do sacerdócio.

“É o momento abençoado em que nós, como os discípulos na Páscoa, somos chamados a ser ‘bastante humildes para nos confessarmos vencidos por Cristo humilhado e crucificado, e para aceitarmos iniciar um novo caminho, o do Espírito, da fé e de um amor forte e sem ilusões’. É o kairos, no qual se descobre que ‘o todo não se reduz a abandonar o barco e as redes para seguir Jesus durante um certo tempo, mas exige ir até ao Calvário, acolher a sua lição e fruto, e ir com a ajuda do Espírito Santo até o fim de uma vida que deve terminar na perfeição da Caridade divina’”.

Segunda unção

Com a ajuda do Espírito Santo, o Santo Padre exortou que este é o tempo para todos os presbíteros, como o foi para os Apóstolos, de uma “segunda unção”, em que se acolhe o Espírito não sobre o entusiasmo dos sonhos, mas na fragilidade da realidade. É uma unção, pontuou Francisco, que mostra a verdade no mais fundo e que permite ao Espírito ungir as fragilidades, cansaços, pobreza interior. “Então, a unção volta a perfumar d’Ele, não de nós”, frisou.

“Irmãos, a maturidade sacerdotal passa pelo Espírito Santo, realiza-se quando Ele Se torna o protagonista da nossa vida. Então, tudo muda de perspectiva, inclusive as desilusões e amarguras, porque já não se trata de procurar aperfeiçoar-se ajustando qualquer coisa, mas de nos entregarmos, sem nada reter para nós, Àquele que nos impregnou com a sua unção e quer descer até ao fundo de nós mesmos. Então voltaremos a descobrir que a vida espiritual torna-se livre e feliz, não quando se salvam as aparências e se coloca um remendo, mas quando se deixa a iniciativa ao Espírito e, abandonados aos seus desígnios, nos dispomos a servir onde e como nos for pedido: o nosso sacerdócio cresce, não com remendos, mas por transbordamento!”

O Espírito Santo é plural

Durante os anos do Concílio Vaticano II, o Pontífice comentou que um teólogo publicou um estudo no qual falava do Espírito em chave, não individual, mas plural. O autor convidou os fiéis a imaginá-Lo como uma Pessoa divina não tanto singular, mas “plural”, como o “nós de Deus”, o nós do Pai e do Filho. “Porque é a sua ligação; é, em Si mesmo, concórdia, comunhão, harmonia. Tudo o que deseja é criar harmonia, principalmente através daqueles sobre quem derramou a sua unção”.

“Irmãos, construir a harmonia entre nós não é tanto um método bom, para que a comunidade eclesial caminhe melhor, nem é questão de estratégia ou de cortesia, mas é, sobretudo, uma exigência interna na vida do Espírito. Peca-se contra o Espírito, que é comunhão, quando nos tornamos, mesmo por frivolidade, instrumentos de divisão; e faz-se o jogo do inimigo, que nunca sai a descoberto, mas gosta de boatos e insinuações, fomenta partidos e fações, alimenta a nostalgia do passado, a desconfiança, o pessimismo, o medo”, alertou.

O Santo Padre pediu aos sacerdotes que estejam atentos para não manchar a unção do Espírito e o vestido da Mãe Igreja com a desunião, com as polarizações, com qualquer falta de caridade e comunhão. “Recordemos que o Espírito, «o nós de Deus», prefere a forma comunitária: a disponibilidade acima das exigências próprias, a obediência acima dos próprios gostos, a humildade acima das próprias pretensões”, ressaltou.

Agradecimento

Por fim, o Papa agradeceu aos sacerdotes pelo “seu testemunho e serviço, pelo bem oculto que fazem, pelo perdão e a consolação que oferecem em nome de Deus”. Agradeceu também “pelo seu ministério, que muitas vezes se realiza no meio de tantas fadigas e pouco reconhecimento”. “O Espírito de Deus, que não desilude quem coloca n’Ele a própria confiança, os encha de paz e leve a bom termo aquilo começou em vocês, para serem profetas da sua unção e apóstolos de harmonia”, concluiu.

Canção Nova Notícias