A partir deste domingo, 21, os fiéis peregrinos poderão venerar, pela primeira vez, os restos mortais de São Francisco de Assis na igreja inferior da Basílica dedicada ao santo, em Assis, Itália. A exposição ocorre por ocasião das celebrações dos 800 anos da morte do santo e prossegue até 22 de março.

O diretor do Escritório de Comunicação do Sacro Convento de Assis, Frei Giulio Cesareo, estima a presença de cerca de 370 mil pessoas, com mais de 15 mil fiéis diariamente. Durante esse período, celebrações solenes e iniciativas especiais destacarão a universalidade e a atualidade da mensagem do Poverello.

Frei Giulio destaca que a veneração das relíquias é uma prática antiga entre os cristãos, pois os santos, em particular os mártires, são aqueles que testemunharam com a própria vida que o amor de Deus os envolveu plenamente. “Francisco é como o grão de trigo que cai na terra e morre, mas ao morrer dá muito fruto”, afirma.

“Francisco é realmente essa semente que, à maneira de Jesus, à maneira dos santos, à maneira dos mártires e talvez de todas as pessoas de boa vontade, se doa na vida cotidiana. E quem se doa se consome, não há como evitar. Mas produz fruto!”.

Para reforçar o sentido de pertencimento e comunhão entre os fiéis, tanto local quanto universalmente, a fé se apresenta como elemento central. Segundo o frade, “nossa fé não é uma crença pré-existente, mas a relação com o Senhor, que é amor. Ter fé é inseparável da experiência de ser um só, unidos no amor”.

O legado do amor e da doação

Nesse contexto, venerar as relíquias de São Francisco de Assis ganha um significado especial. O franciscano explica que esse ato fortalece a certeza de que “quem ama, ao se doar, se consome, mas está alimentando os vínculos de união, que são os da Igreja, que são os da caridade”.

Para ele, quanto mais se vive no amor, mais se experimenta o dom de si mesmo e a humanidade se revela em sua essência. “O que nos une aos outros não são ideias, mas o amor que damos nas relações. Venerar Francisco é a oportunidade de considerar quanto o amor doado com autenticidade produz frutos, e há 800 anos ainda se fala sobre isso”, destaca.

Em uma sociedade cada vez mais centrada em si mesma, Frei Giulio espera que o evento vá além do benefício para hotéis e restaurantes, tornando-se uma oportunidade de graça. Inspirados em Francisco, que se doou e se consumiu, que os peregrinos e todos os habitantes da região possam redescobrir o valor de se doar sem medo.

Francisco, exemplo vivo do Evangelho

Questionado sobre o por que Francisco continua a falar aos jovens e até aos não crentes por meio de sinais concretos, como as relíquias, Frei Giulio afirma: “As relíquias fazem parte do seu material biológico. Assim como alguém fala e é ouvido graças ao corpo — sem corpo, não há voz —, nosso corpo é o lugar onde acontecem as relações. As relíquias do santo são, portanto, a casca da semente de Francisco que germinou, e essa casca nos fala dele”.

Segundo o frade, a atração por Francisco está na sua vivência do Evangelho. “As pessoas buscam Francisco porque ele é o próprio Evangelho; nele vemos que o Evangelho, quando acolhido, é uma boa notícia para o mundo, para as pessoas, para os indivíduos e para a comunidade. Desde o início, Francisco foi chamado de alter Christus, não no sentido de outro Cristo, mas como ícone de Cristo, não apenas uma imagem semelhante”, acrescenta.

Frei Giulio ressalta que a exibição das relíquias não é apenas um momento de devoção popular mas é também um ato eclesial com valor teológico e cultural. “Queremos nutrir a devoção — nosso amor — com uma experiência eclesial que é teologicamente fundamentada, mas não por isso difícil. A teologia não nasceu para ser difícil; nasceu para expressar com palavras a vida que nos habita”, explica.

Para ele, São Francisco representa “a casca de uma semente que germinou na caridade e atravessa tempo e espaço. Isso nos encoraja a viver a vida cotidiana com amor. É isso que Francisco nos convida a viver”. O frade lembra que iniciativas como o site www.sanfrancescovive.org e as redes sociais da basílica ajudam a formar e aproximar os fiéis dessa experiência.

Uma mensagem universal de esperança

Ao concluir a entrevista, Frei Giulio declara que em meio a crises sociais e conflitos, São Francisco de Assis continua a transmitir uma mensagem universal de esperança e ação pessoal.

“Francisco não viveu em um tempo muito melhor que o nosso. Havia guerras religiosas, grandes conflitos, disputas familiares, muita injustiça. Ele não viveu em um momento histórico ideal”, lembra Frei Giulio.

Segundo ele, o legado do Poverello está na capacidade de transformar o ambiente ao redor de quem acolhe o Evangelho. “Sempre ouvimos uma voz ao fundo dizendo: ‘Você não pode fazer nada, está sozinho, é inútil. São os poderosos que governam, nós não podemos fazer nada’. Francisco testemunha que isso é mentira. Se alguém acolhe o Evangelho, não muda o mundo inteiro, mas cria novas relações e transforma o que está ao seu redor”, explica.

O frade ressalta ainda a força duradoura desse testemunho: “São 800 anos que Francisco continua tocando os corações das pessoas. Não podemos resolver todos os problemas, mas se cada um de nós dá um passo, esse passo deixa impacto, tem efeito. É mentira quem diz que não podemos fazer nada”.

Fonte: Canção Nova