Vivemos num mundo ferido por muitos conflitos e atingido por hostilidades sangrentas. O nacionalismo extremo espezinha os direitos dos mais frágeis. Mesmo antes de ser esmagada no campo de batalha, a paz é derrotada no coração humano quando cedemos ao egoísmo e à ganância e quando permitimos que os interesses partidários prevaleçam em vez de olharmos para o bem comum. Muitos autores afirmaram que é quando nos recusamos a ouvir as histórias de outras pessoas que começamos a privá-las de sua dignidade. Despersonalizar os outros é o primeiro passo para toda guerra. Conhecer os outros, no entanto, é um prenúncio da paz. Mas para conhecer, primeiro precisamos saber amar. Santo Agostinho disse que “ninguém conhece ninguém a não ser pela amizade” (Oitenta e três perguntas diferentes, 71).

Gostaria de refletir aqui sobre essa dupla dimensão da paz, que é vertical (a paz como dom do Alto) e horizontal (a paz como responsabilidade de cada pessoa).

A paz é um dom que Deus concedeu aos homens e mulheres de todos os tempos através do nascimento de Jesus em Belém. Os anjos anunciaram a paz na terra porque Deus se fez homem. Ele abraçou a humanidade de forma tão profunda que destruiu com sua cruz a hostilidade do pecado. Santo Agostinho escreve: “Nós também seremos glória a Deus no alto dos céus quando, na ressurreição do corpo espiritualizado, formos arrebatados nas nuvens ao encontro de Cristo; desde que, porém, agora que estamos na terra, busquemos a paz com boa vontade” (Discursos, 193). A glória de Deus desceu à terra para nos tornar participantes de sua infinita bondade. Este dom exige a responsabilidade de nossa resposta, de nossa “boa vontade”, como escreve o santo de Hipona.

Além disso, a paz é o dom que o Ressuscitado ofereceu aos seus discípulos. É uma paz “ferida” pelas chagas da crucificação, porque a paz de Jesus brota de um coração que ama e que se deixa atingir pelo sofrimento de todos os tempos e lugares. “Depois da sua ressurreição, o Senhor apareceu aos seus discípulos e os saudou dizendo: A paz esteja convosco. Eis que a paz é a saudação da salvação, pois o próprio termo ‘saúde’ deriva da salvação” (Santo Agostinho, Discursos, 116).

No entanto, a paz também é um compromisso e uma responsabilidade de cada um de nós. Paz significa ensinar as crianças a respeitar os outros e a não praticar bullying quando brincam. Paz significa vencer o nosso orgulho pessoal e abrir espaço para o outro, em nossa família, no trabalho, no esporte. Paz é quando o nosso coração e a nossa vida são habitados pelo silêncio, pela meditação e pela escuta a Deus; porque Deus nunca abençoa a violência, nunca aprova tirar vantagem dos outros ou o abuso frenético da única Terra que está desfigurando a Criação, uma carícia do Criador.

Podemos nos sentir impotentes diante das muitas guerras que estão sendo travadas no mundo. Podemos responder de várias maneiras ao que chamei de “globalização da impotência”: os fiéis podem, antes de tudo e acima de tudo, dar voz à oração. A oração é uma força “desarmada” que busca apenas o bem comum, sem exceções. Ao orar, desarmamos nosso ego e nos tornamos capazes de gratuidade e sinceridade.

Além disso, o nosso coração é o campo de batalha mais importante. É nele que devemos aprender a vitória silenciosa, porém necessária, sobre os impulsos de morte e as tendências à dominação: somente corações pacíficos podem construir um mundo de paz. Devemos praticar uma cultura de reconciliação, criando laboratórios não violentos, lugares onde a desconfiança em relação aos outros possa se tornar uma oportunidade de encontro. O coração é a fonte da paz; nele, devemos aprender a nos encontrar em vez de entrar em conflito, a confiar em vez de desconfiar, a ouvir e compreender em vez de nos fecharmos para os outros.

Por fim, a política e a Comunidade internacional têm a responsabilidade de facilitar a mediação em conflitos, utilizando a arte do diálogo e da diplomacia. “Senhor Deus, […] conceda-nos a paz, a paz do repouso, a paz do sábado, a paz sem ocaso”: com estas palavras de Santo Agostinho, pedimos ao Pai que conceda ao nosso mundo, a todas as pessoas, especialmente as mais esquecidas e as que mais sofrem, a graça abençoada de uma paz justa e duradoura.

Fonte: Vatican News