“Os anjos de Deus” foi o tema da reflexão de Dom Erik Barden, o pregador dos Exercícios Espirituais da Quaresma no Vaticano na manhã desta quinta-feira, 26.
Retomando o Evangelho do último domingo, que narra as tentações sofridas por Jesus no deserto (Mt 4,1-11), o religioso destacou o momento em que o diabo colocou Jesus sobre a parte mais alta do Tempo na Cidade Santa. Lá, o demônio o desafiou a provar que era o Filho de Deus lançando-se para baixo, sob o argumento de que, conforme está escrito no Salmo 90, “Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.
“Somente Deus pode nos convidar a saltar de um pináculo”, observou Dom Barden. “Sua chamada, porém, será: ‘Salta para os meus braços’, e não: ‘Lança-te para baixo’”, acrescentou.
O pregador sublinhou que as intervenções angélicas nem sempre são tranquilizadores, pois os anjos não têm por objetivo satisfazer os caprichos humanos. Na oração do Santo Anjo, atribuída a Reginaldo da Cantuária, pede-se ao anjo da guarda: “nos rege, nos guarde, nos governe e nos ilumine”. São verbos fortes, que frisam que um anjo é, antes de tudo, um guardião da santidade.
Elevar a alma ao céu
A constituição Sacrosanctum Concilium cita um único “canto de louvor”, que ressoa das extremidades da terra até os cumes do céu por meio de uma cadeia pulsante de mediação. “Os anjos são parte essencial dessa cadeia, como afirmamos em cada Prefácio dentro do cânon da Missa”, lembrou o religioso.
Em seus sermões sobre o Salmo 90, São Bernardo de Claraval destacou o papel dos anjos como mediadores da providência de Deus. “A mediação nem sempre é necessária: Deus pode tocar-nos sem mediadores. Contudo, ele se compraz em deixar que suas criaturas sejam canais de graça umas para as outras”, frisou Dom Barden.
O santo francês exortava os fiéis a olharem o que os anjos fazem e realizarem o mesmo, descendo e mostrando misericórdia ao próximo e elevando aos céus os próprios desejos. “Todos os desejos humanos naturais, inclusive os carnais, são atraídos para seu cumprimento em Deus e, portanto, devem ser orientados para Ele”, comentou o pregador.
Ele mencionou ainda que o último e mais decisivo ato de caridade dos anjos acontece na hora da morte, quando conduzem os homens através do véu deste mundo para a eternidade. “Toda ficção cairá nessa hora: a retórica desaparecerá, apenas a verdade permanecerá, em plena consonância com a misericórdia”, descreveu o religioso.
São John Henry Newman
Dom Barden também fez uma referência a São John Henry Newman, que refletia muito sobre os anjos e concebia o ministério sacerdotal como angélico. “O sacerdote está em casa neste mundo, não tem medo de entrar nos bosques escuros à procura dos perdidos. Ao mesmo tempo, mantém os olhos da mente erguidos para o rosto do Pai, deixando que seu esplendor ilumine toda a realidade presente. A iluminação é sempre dupla: intelectual e essencial, sacramental e pedagógica”, comentou.
O recém-proclamado Doutor da Igreja pede ainda que o professor seja redescoberto como iluminador angélico. Enquanto jovens, adolescentes e crianças desejam encontrar mestres dignos de confiança, os educadores vivem o desafio de instruir enquanto essa tarefa hoje é desempenhada também pelos meios digitais. “Um encontro angélico é pessoal”, concluiu o pregador, “não pode ser substituído por um download ou por um chatbot”.
Fonte: Canção Nova