14 anos de reconhecimento diocesano da Comunidade Coração Fiel
Textos: 2Sm 12,1-7a.10-17; Sl 50(51); Mc 4,35-41
Patrono: São João Bosco

Amados irmãos e irmãs,
queridos consagrandos da Comunidade Coração Fiel,
filhos e filhas espirituais desta Família,

Hoje, dia de São João Bosco, temos a graça de celebrar, com gratidão e santo temor, os 14 anos de reconhecimento diocesano do Carisma Coração Fiel. Após 20 anos de fundação, temos a alegria de renovar nosso compromisso de consagração ao Senhor acolhendo 5 novos consagrados que somam força aos membros veteranos. Tudo isso é um ardente grito do Coração de Jesus a tantos que estão aqui e os que nos acompanham pelo sistema Coração Fiel: há lugar pra você também aqui!

A Eucaristia de hoje é um cântico de louvor a Deus pelo privilégio de ser consagrado neste carisma, e, ao mesmo tempo, um chamado sério aos deveres que nascem dessa eleição de amor. Por isso enfatizarei os privilégios e os deveres desta consagração de vida. Não celebramos apenas a renovação do compromisso numa data na história; celebramos a fidelidade de Deus que, após nosso reconhecimento diocesano, conduziu, corrigiu, purificou, sustentou e fez crescer esta obra de Seu Coração.

  1. Um privilégio que nasce da misericórdia: “Tu és este homem!” (2Sm 12)

A Primeira Leitura (2Sm 12,1-7a.10-17) nos apresenta o profeta Natã diante do rei Davi. Depois do pecado grave, Davi é confrontado pela palavra de Deus: “Tu és este homem!”. É uma palavra dura, mas é também uma palavra de salvação. Deus não abandona Davi ao seu pecado; Ele o visita com uma misericórdia exigente, que cura ferindo, que restaura corrigindo.

No carisma Coração Fiel, segundo o nosso Estatuto, nós fomos chamados a viver uma consagração profundamente marcada pela misericórdia de Deus. Em nossos documentos internos vemos Jesus tocando em pecados concretos, em misérias ocultas, em vaidades disfarçadas de piedade, exatamente para dizer a cada um:

“Filho, filha, tu és este homem! Tu és esta mulher! Mas Eu não te rejeito; Eu te chamo de novo para o Meu Coração.”

O primeiro privilégio de ser Coração Fiel é este:

não fomos escolhidos porque somos melhores, mas porque Deus nos olhou na nossa miséria e decidiu nos amar mais de perto, mais de dentro, mais profundamente.

E aqui nasce o primeiro dever:

Se fomos alcançados por uma misericórdia assim, temos o dever de viver em constante conversão, permitindo que a Palavra, como Natã, nos confronte, nos desmascare, nos chame à verdade.

  • Ser consagrado no Coração Fiel não é apenas “pertença afetiva”; é assumir o compromisso de ser um coração visitado, corrigido e purificado por Deus, dia após dia.

  • Nosso Estatuto nos recorda que a nossa vida não é nossa: é oferta, é oblação, é holocausto de amor. Quem foi tão amado não pode mais viver uma vida superficial, dividida, incoerente.

  1. “Criai em mim um coração que seja puro” (Sl 50): o coração que dá nome ao nosso carisma

O Salmo 50 (51), que hoje cantamos, é o grito de Davi depois de reconhecer o seu pecado:

“Criai em mim um coração que seja puro, Dai-me de novo um espírito decidido.”

Este é um dos salmos mais lindos das Sagradas Escrituras, ele pode ser um lindo reflexo do nosso carisma.

O Carisma Coração Fiel nasceu da contemplação do Coração de Jesus, transpassado, misericordioso, e do desejo de que os nossos corações sejam lavados, recriados, configurados ao d’Ele.

Quantas vezes já pudemos ouvir de Nosso Senhor:

  • Dá-Me o teu coração”;
  • Deixa-Me moldar o teu coração”;
  • Quero fazer do teu coração um lugar de repouso para o Meu.”

Ser consagrado na Comunidade Coração Fiel é um privilégio porque: somos chamados a viver por dentro, intensamente, aquilo que todo cristão é chamado a viver: um coração recriado pela graça.

Mas isso gera também deveres concretos:

  1. Dever da oração fiel:

O Estatuto nos aponta para uma vida marcada pela oração diária, pela escuta da Palavra, pela adoração. Um coração fiel não nasce de improviso; ele é esculpido dia a dia na intimidade com Deus.

  1. Dever da penitência e da confissão frequente:

Quem canta “Criai em mim um coração que seja puro” não brinca com o pecado. O consagrado do carisma Coração Fiel é chamado a ter horror ao pecado, rapidez em se levantar, humildade em buscar o sacramento da reconciliação.

  1. Dever da transparência:

Nossos documentos e a nossa prática comunitária enfatizam a importância da vida acompanhada, da direção espiritual, da correção fraterna.

    • Coração Fiel não combina com duplicidade.

    • Coração Fiel não combina com vida dupla.

    • Coração Fiel é claridade, verdade, simplicidade.

  1. “Mestre, estamos perecendo!” (Mc 4,35-41): a barca da Comunidade e o Senhor da tempestade

No Evangelho (Mc 4,35-41), contemplamos Jesus na barca com os discípulos, em meio à tempestade. O vento é forte, as ondas se jogam contra o barco, e Jesus… dorme. Até que os discípulos gritam:

Mestre, não te importa que estejamos perecendo?”

Ao longo desses 20 anos de comunidade, inclusive após nosso reconhecimento diocesano – 14 anos atrás, sempre experimentamos essa sensação de ‘mar agitado’.

  • Houve ventos de fora: incompreensões, perseguições, provações materiais.

  • Houve ventos de dentro: fragilidades, pecados, divisões, tentação de desistir.

Temos que admitir que muitos de nós, em várias ocasiões fizemos, no silêncio, esta mesma oração:

Senhor, não te importa?… Estamos perecendo!”

E o Senhor, tantas e tantas vezes, se levantou na barca da Comunidade Coração Fiel, repreendeu o vento, acalmou o mar, fortaleceu a fé.

Ser consagrado neste carisma é um privilégio porque:

somos testemunhas vivas de que Jesus está na nossa barca. A Comunidade não é o resultado de projetos humanos, de estratégias, de planejamento: Ela é fruto do próprio Coração de Jesus que nos conduz e não nos abandona.

Mas este Evangelho hoje nos recorda também um dever sagrado:

Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”

  • O consagrado da Comunidade Coração Fiel não pode viver de medo.
  • Não pode ser conduzido por inseguranças humanas, por susceptibilidades, por vaidades feridas.
  • Somos chamados a ser homens e mulheres de audaciosa, que confiam até quando Jesus parece dormir.

Prestes a renovar nossas juras de amor ao Senhor, Ele nos pergunta novamente:

Este aniversário do nosso reconhecimento não é uma recordação nostálgica; é um convite a uma fé mais madura, mais viril, mais obediente, capaz de permanecer na barca mesmo quando o mar se torna mais bravo.

  1. 14 anos de reconhecimento diocesano: graça e responsabilidade

Queridos irmãos, o reconhecimento diocesano, que hoje recordamos com gratidão, é ao mesmo tempo uma confirmação e uma missão.

  1. Confirmação:

A Igreja, por meio do Bispo diocesano em 2012, olhou para esta Comunidade após os primeiros 7 anos de existência, examinou seu Estatuto, acompanhou seu crescimento, e disse:

“Esta obra é de Deus; esta espiritualidade é fecunda; este carisma é um dom para a Igreja.”

Isto é um privilégio imenso: não caminhamos por conta própria; caminhamos sob o olhar e a bênção da Igreja.

  1. Missão e responsabilidade:

Ao reconhecer a Comunidade, a Igreja também diz:

“Eu conto com vocês! Eu confio em vocês! Aprendam de Cristo a serem corações fiéis no meio do povo!”

O Estatuto deixa claro que a nossa consagração não é isolada: ela é para o serviço da Igreja, para a evangelização, para a formação, para a consolação das almas, para a restauração das famílias, para a acolhida dos feridos, para conquistar e reconquistar.

Ser consagrado no Coração Fiel significa assumir, com seriedade, esses deveres eclesiais:

  • Viver em plena comunhão com Magistério da Igreja;
  • Amar o contexto eclesial em que estivermos,
  • Fazer do carisma um dom aberto ao Corpo de Cristo.
  1. São João Bosco: patrono e modelo de coração fiel

Hoje não podemos deixar de olhar para o nosso patrono, São João Bosco. Ele foi, no seu tempo, um coração totalmente entregue a Deus e aos jovens, especialmente aos mais pobres e abandonados.

    • Dom Bosco soube unir profunda vida interior com audácia apostólica,
    • Obediência à Igreja com criatividade pastoral,
    • Amor a Maria Auxiliadora com amor à juventude concreta, ferida, real. Quantos pontos de contato com o nosso carisma:
  1. Coração apaixonado por Jesus e pela Igreja

Assim como Dom Bosco vivia “tudo por Deus e pelos jovens”, um Coração Fiel é chamado, a partir do Estatuto, a viver tudo por Deus e pelas almas que o Senhor nos confia.

  1. Vida oferecida até o fim

Dom Bosco morre consumido pelo trabalho, pela doação, pelo cuidado das vocações.

Um consagrado Coração Fiel não pode se contentar com uma vida de “meias medidas”:

    • é chamado a um “sim” até o fim,
    • um “sim” que cansa, que gasta, que consome,
    • mas que também enche de alegria o coração porque sabe ‘descansar’ e se refazer na presença do Mestre e Senhor.
  1. Educação do coração

Dom Bosco entendia que educar é questão de coração.

Nós, na Comunidade Coração Fiel, somos chamados a ser “pedagogos do coração”, ajudando as pessoas a voltarem ao Coração de Jesus, a abandonar o pecado, a crescer na maturidade afetiva e espiritual.

Olhemos para São João Bosco e peçamos:

Santo pai e amigo da juventude, ensina-nos a gastar a vida como tu,

ensina-nos a amar esta Comunidade como dom de Deus, ensina-nos a ser corações fiéis até o último suspiro.”

  1. Conclusão: renovar hoje a nossa consagração

Por meio desta celebração, não apenas pelo rito de Renovação do Compromisso, mas principalmente com a nossa vida somos convidados a:

  1. Reconhecer o privilégio:
    • Deus nos chamou, nos reuniu, nos deu um nome, um carisma, um Estatuto, uma história.
    • Somos, por pura graça, parte de algo que nasceu do Coração de Jesus.
  2. Assumir os deveres:
    • Viver em conversão contínua como Davi;
    • Clamar diariamente por um coração puro, como no Salmo 50;
    • Permanecer na barca, confiando, mesmo nas tempestades, como no Evangelho;
    • Viver a obediência à Igreja, a fidelidade ao Estatuto, a profundidade da vida de oração, a seriedade na vida fraterna, o zelo missionário;
    • Imitar São João Bosco na doação incansável, na criatividade da caridade e no amor aos pequenos.

Aos veteranos: perseveremos, doemos nosso testemunho como um verdadeiro farol. Que a alegria da nossa vida doada, reforce entre nós o zelo pelo selo do carisma.

Aos que se consagra pela primeira vez: sejam bem-vindos, o sim de vocês é a resposta das nossas orações e das orações de muitas pessoas. Que o privilégio da consagração a Deus seja o maior estímulo para honrar os deveres desta nova etapa da vida.

Aos familiares dos consagrados: parabéns! Ter um consagrado na família, alguém que está mais perto do coração de Deus, é uma honra. Que todos os dias a família de vocês saiba dizer ao Senhor “obrigado Deus, porque um de nós pertencem inteiramente a ti! “.

A todos vocês queridos irmãos e irmãs, repito as palavras do nosso inspirador principal São João Paulo II: “não tenhais medo, Abri, escancarai vossos corações a Cristo e ao seu poder! “. Se nesta noite, algum gesto destes irmãos tocar o seu coração, compreenda que pode ser Deus chamando você para fazer o mesmo: entregar tudo Cristo, Ele – o único – que por justiça merece Tudo.

Hoje, diante do altar, à luz destas leituras, dos nossos documentos oficiais e sob o olhar de São João Bosco, peçamos a graça de renovar interiormente nossa consagração:

“Senhor Jesus, Coração Fiel e misericordioso, nós Te agradecemos por estes 14 anos em que a Tua Igreja reconheceu esta obra como Tua. Renova em nós a graça da consagração, dá-nos um coração puro, humilde, obediente, firme na fé em meio às tempestades, ardente de zelo pelas almas.

Que, à semelhança de São João Bosco, possamos gastar nossa vida por Ti e pelos irmãos, e que a Família Coração Fiel

permaneça sempre fiel ao Teu Coração. Amém.” Que Maria, Mãe Fiel, e São João Bosco intercedam por nós, e que possamos viver muitos anos de fidelidade, humildade e ardor missionário como Comunidade Coração Fiel.

Assim seja.